Cantora, poeta, primeira mulher a assinar um samba-enredo e fazer parte da ala de compositores de uma escola de samba. Dona Ivone Lara tem uma biografia extensa e marcante na música popular brasileira que extrapola a cultura para alcançar a História da saúde no Brasil.
Para além da jornada da menina órfã, criada pelos tios e que logo cedo aprendeu a tocar cavaquinho, há a mulher vinda do subúrbio do Rio de Janeiro que se tornou uma enfermeira e uma das primeiras assistentes sociais negras do Brasil.
A infância de Yvonne
Nascida em abril de 1922, Yvonne Lara da Costa cresceu acompanhada pela música no bairro da Tijuca, no Rio.
Além de observar o tio tocar com músicos como Pixinguinha e Donga, precursores do samba no Brasil, durante a infância teve a oportunidade de ter aulas de canto com Lucília Guimarães, casada com o maestro Heitor Villa-Lobos.
No final da adolescência, mudou-se para Madureira e buscou uma profissão para ser seu ganha-pão, enquanto mantinha a música como hobby. A enfermagem foi sua escolha.
A jornada de Ivone Lara na saúde pública
Sua trajetória na área da saúde começou aos 17 anos na graduação de enfermagem.
Aos 25 anos, em 1947, prestou concurso público do Ministério da Saúde e começou sua trajetória profissional no Serviço Nacional de Doenças Mentais.
Chegou ao berço da luta antimanicomial no Brasil, o Instituto de Psiquiatria do Engenho de Dentro, onde se aposentou 30 anos depois, em 1977.
Durante esse período, Ivone não parou de estudar. Se formou em assistência social, tornando-se uma das primeiras mulheres negras assistentes sociais e com um curso superior no Brasil. Depois, especializou-se em terapia ocupacional.
As três formações foram essenciais para sua atuação profissional no Instituto de Psiquiatria do Engenho de Dentro.
Ao lado da médica psiquiatra Nise da Silveira, Ivone participou da humanização do tratamento de pessoas com sofrimentos mentais, um movimento reconhecido mundialmente.
Por meio da terapia ocupacional, o movimento tinha o propósito de deixar no passado os diagnósticos médicos que desacreditaram os pacientes e utilizavam terapias invasivas e agressivas. O tratamento mais humanizado teve um papel de abrir o debate para o fim do confinamento institucional de pessoas com transtornos mentais.
A terapia ocupacional dentro do Instituto fortaleceu a “livre expressão artística" por meio de atividades coletivas, oficinas de músicas e apresentações de dança e canto.
O objetivo era promover um clima terapêutico dentro do hospital, diminuir o isolamento dos pacientes e estabelecer um vínculo entre pacientes e a vida em sociedade.

O poder da musicoterapia
Assim como a médica Nise da Silveira buscou nas telas, pincéis e no contato com animais, um tratamento digno para a saúde mental dos pacientes no hospital, Dona Ivone Lara levou a musicoterapia como uma alternativa de tratamento e ferramenta de ressocialização das pessoas internadas no Engenho de Dentro.
Para a enfermeira Andrea Bueno, do Time de Saúde da Alice, a trajetória de Ivone reflete o papel atuante do enfermeiro em desenvolver protocolos de acordo com as necessidades de saúde.
“A iniciativa representa claramente como a enfermagem lida com questões de saúde diante de um contexto social ou comportamental. O enfermeiro é um agente de saúde preparado para acolher necessidades e buscar soluções”, defende.
Para Dona Ivone Lara, sua função como enfermeira e seu dom para a música foram os alicerces para uma transformação dentro do hospital, com uma oficina de música dedicada aos pacientes com transtornos mentais.
Além da função terapêutica, a música também foi conduzida como uma ferramenta de ressocialização, um importante pilar para a função de assistente social.
Em uma época em que os pacientes de saúde mental eram abandonados pelos seus familiares, como assistente social, Dona Ivone Lara se dedicava a viajar pelo Rio de Janeiro em busca de familiares e amigos dos pacientes, na tentativa de conscientizá-los sobre o importante papel da rede de apoio.
Foi a partir dessa iniciativa que a música foi protagonista do reencontro entre pacientes, familiares, funcionários em festas e eventos de socialização dentro do hospital, na década de 1960, quando a solidão e os estigmas da saúde mental acompanhavam aqueles que estavam internados e lidando com o sofrimento psíquico.
O legado de Dona Ivone Lara
Embora a música estivesse em segundo plano até sua aposentadoria como enfermeira em 1977, para a História, o dom de Yvonne fez parte de um momento de ressignificação da saúde mental no Brasil.
Durante décadas, profissionais de saúde buscaram o Instituto de Psiquiatria do Engenho de Dentro para fazer estágios nas oficinas de terapia ocupacional e influenciaram os profissionais de assistência social que trabalham nesse campo da ciência.
A enfermeira Andrea Bueno, que é especialista em Saúde da Família, estudou as iniquidades da saúde da população negra. Ela aponta que a representatividade no atendimento também é importante para alcançar uma saúde para todos.
“A presença de um profissional de saúde negro, um gestor negro, pode diminuir essas estatísticas que demostram que população negra sofre um descaso no atendimento de saúde. Para isso, precisamos contar a história de como a população negra ocupa esses espaços — e que eles são de todos”, conclui.