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15/9/2021
Sono

Qual a relação entre os sonhos e o nosso humor na pandemia?

Pesquisa explica a relação entre o mal-estar de um pesadelo e o bem-estar que só uma boa noite de sono é capaz de nos proporcionar. Saiba mais.

Ana Beatriz Rosa
mulher dormindo com a cabeça no travesseiro e tapa olhos

Como encontrar a sua paz de espírito em meio a uma pandemia? Se você está tendo sonhos cada vez mais perturbadores, você não está sozinho. Sensação de impotência, paralisia e repetição de cenários são alguns dos pesadelos investigados a partir de relatos de profissionais de saúde e cidadãos comuns desde abril de 2020. 


A partir da pergunta “O que você sonhou hoje?”, pesquisadores de três universidades (UFRGS, UFMG e USP) coletaram depoimentos para compreender melhor as estratégias psíquicas desenvolvidas pelos brasileiros para lidar com os efeitos do coronavírus em suas rotinas. Intitulado de “Sonhos em Tempos de Pandemia”, o estudo ainda está em andamento e demonstra que compartilhar as narrativas oníricas pode ser uma boa ferramenta para lidar com as experiências complexas.


Não é novidade, contudo, que a qualidade do nosso sono e o conteúdo daquilo que sonhamos são capazes de interferir na nossa saúde física e mental. A seguir, vamos entender o que a Ciência já sabe sobre a relação entre os sonhos e o nosso humor— e como compreender os efeitos dos sonhos pandêmicos. 


O bem-estar, o mal-estar e a relação com nossos sonhos


De acordo com estudos anteriores, pessoas com diferentes transtornos de saúde mental ou distúrbios do sono relatam ter pesadelos em maior frequência. Por outro lado, com a consolidação de um tratamento para os sintomas de ansiedade e depressão, os pacientes relatam ter sonhos com conteúdos mais agradáveis. 


Ao explorar a relação entre o bem-estar e os efeitos negativos daquilo que entendemos como pesadelos, pesquisadores da Universidade de Turku, na Finlândia, analisaram como a sensação de paz de espírito se relaciona com o conteúdo positivo dos sonhos, enquanto os sintomas de ansiedade estavam diretamente ligados a sonhos ruins.


A pesquisa, publicada na revista acadêmica Nature em 2018, procurou diferenciar os conceitos de “paz de espírito”, “bem-estar” e “mal-estar” em relação aos conteúdos dos sonhos e também explicar como se dá essa relação em contextos em que nos sentimos mais ameaçados e ansiosos.

A ciência do bem-estar


Sonhos como objeto de estudos


Durante 21 dias, os pesquisadores da Universidade de Turku acompanharam um grupo de adultos saudáveis que descreveram todos os seus sonhos e avaliaram os efeitos das experiências oníricas em seu humor, de acordo com uma metodologia específica para classificar as emoções. 


Os resultados mostraram que os indivíduos que experimentaram sonhos com afetos mais positivos sentiram uma maior paz de espírito no dia subsequente ao sonho. Já aqueles que experienciaram sonhos turbulentos relataram sintomas de ansiedade como efeito direto do sonho.


A descoberta de que a ansiedade e a paz de espírito estavam diretamente relacionadas ao conteúdo do sonho fez os pesquisadores analisarem o que conecta esses sintomas - mas para entendermos a profundidade disso, é preciso dar um passo atrás.

A ansiedade como uma resposta ao perigo iminente


De acordo com a Ciência, e por uma perspectiva evolutiva, a ansiedade é entendida como uma resposta funcional a situações que são potencialmente ameaçadoras. Ou seja, a ansiedade é um medo antecipado e uma preocupação excessiva frente àquilo que não podemos controlar. 


Faz parte do ser humano se sentir ansioso diante de situações que são potencialmente perigosas como forma de sobrevivência. No entanto, o problema está quando passamos a entender um ambiente seguro como uma ameaça em potencial, ou seja, quando o nosso sistema cognitivo para detectar riscos está super-ativado. Assim, o estado de ansiedade crônico passa a ser entendido como uma desregulação do nosso sistema. 


Ao analisar os estágios do sono dos participantes que relataram sintomas de ansiedade, os pesquisadores da Universidade de Turku perceberam que os mesmos mecanismos psicológicos e neurobiológicos relacionados à ansiedade quando estamos acordados são os responsáveis ​​pelo aumento dos afetos negativos nos sonhos perturbadores. Ou seja, as ameaças percebidas durante a vigília (quando estamos acordados) levaram a uma maior simulação de ameaça — e conteúdos negativos — durante nosso sono.


Em parte, isso explica por que os sonhos pandêmicos podem se tornar experiências intensas para algumas pessoas. Diante de um cenário complexo e com tantas incertezas, é quase uma resposta biológica do nosso organismo transbordar essas emoções enquanto estamos dormindo.


O controle das nossas emoções como ferramenta para o bem-estar


Apesar de ser um estudo exploratório e ainda carecer de mais evidências, a pesquisa da Universidade de Turku aponta para caminhos possíveis sobre como construir uma resposta saudável aos efeitos dos sonhos em nossa saúde mental.


No estudo, em relação às pessoas que relataram experimentar a paz de espírito, a hipótese dos pesquisadores é de que pode haver indivíduos que tenham uma maior facilidade para reconhecer gatilhos de ansiedade, por exemplo, seja por conta de sua personalidade, seja por viverem em contextos mais privilegiados do ponto de vista de exposição a potenciais ameaças. 


Outra leitura dos cientistas é a de que as pessoas também são capazes de aprender a regular esses estados afetivos. Ou seja, nós somos capazes de transformar uma experiência negativa em uma resposta positiva por meio do reconhecimento dos pensamentos e da diferenciação de riscos reais dos riscos irreais.


Assim, já que não temos controle total sobre a realidade, podemos, ao menos, entendê-la melhor por meio dos nossos sonhos. Da mesma forma que os conteúdos oníricos trazem pistas sobre o nosso estado emocional de quando estamos acordados, uma compreensão mais abrangente dos sonhos podem ser úteis para a construção de ferramentas que aumentam o nosso bem-estar quando estamos acordados.




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