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22/9/2021
Mente

Só há luto onde existiu amor: falando sobre a dor da perda

A Pandemia limitou rituais de despedida e criou barreiras para a entendermos como encarar a morte. Veja como adaptar os rituais tradicionais de partida.

Brunna Mariel
mulher chorando e de luto

Só há luto onde existiu amor. Fechar os olhos e fazer essa reflexão pode ser um caminho para entender que o luto não é uma doença e sim um processo tão humano e genuíno como o próprio amor e outros sentimentos que nutrimos ao longo da vida. 

Desde o início da pandemia de covid-19, o enfrentamento da morte se intensificou seja pelo medo individual da doença ou pela partida de nossos parentes e amigos.

Falando sobre a dor da partida

Globalmente, diferentes estudos demonstram o impacto agressivo da pandemia na sociedade, inclusive no luto das famílias que perderam alguém nos últimos 15 meses. 

Apertar a mão como última despedida. Escolher a roupa favorita. Receber o abraço quente de um familiar para acolher. O ombro amigo para chorar.

Rituais que há séculos foram adaptados pela sociedade de acordo com a religião e cultura, para aproximar a sociedade do entendimento da partida e do rompimento de um vínculo afetivo, foram interrompidos pelos protocolos sanitários essenciais para conter o coronavírus.

Na falta do ritual tradicional de sua religião, pessoas que sofreram perdas encontram o vazio do tempo limitado para enterro, velório ou cremação. Não podem espairecer ao ar livre ou encontrar familiares sem o medo do vírus reaparecer e o pesadelo recomeçar. 

Sem esse processo, é natural que o enfrentamento da morte seja mais doloroso e solitário. 

“O processo do luto é normal. É saudável quando conseguimos oscilar o sentimento de perda com os momentos de reconstrução da nossas vidas. Inicialmente, ficamos mais focados na situação. A falta de rituais dificulta fazer os fechamentos que são importantes para encerrar ciclos e o distanciamento social diminui a construção da rede de apoio para superarmos”, explica Cesar Ferreira, médico da Alice e especialista em Cuidados Paliativos.

Um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais com 9.024 brasileiros demonstrou que a perda de um familiar ou amigo devido à infecção do SARS-CoV 2 pode aumentar o sofrimento psicológico, ou seja, os transtornos de saúde mental, especialmente na população que já tinha histórico de outras condições mentais antes da pandemia.

Há também relatos de famílias que estão com dificuldade para lidar com o luto por conta do estigma da covid-19.

As fake news da doença em relação à etnia e nacionalidade ou a interpretação errada de que os pacientes fizeram algo de errado para se contaminar, além de termos como "famílias de covid” ou “adoentados”, podem criar uma sensação de medo, ansiedade e raiva nas relações, o que dificulta o acolhimento após a morte. 

A OMS (Organização Mundial da Saúde) criou um protocolo para que a sociedade entenda que a discriminação relacionada ao vírus e à pandemia pode gerar diversos problemas para pacientes e familiares.

No caso daqueles que estão em luto, ser tratado com preconceito causa evasão social e sentimento de rejeição. 

“O luto é processo individual, que lidamos de forma mais fácil quando o compartilhamos. Colocar os sentimentos para fora, nos faz compreender e dar nome às emoções, sendo assim, enfrentar a situação”, explica Cesar Ferreira. “Essa escuta pode ser feita pela nossa rede de apoio ou profissionais de saúde, que também podem auxiliar no luto prolongado, que traz riscos à saúde mental. Contudo, vale esclarecer que, ao superar, nunca mais seremos os mesmos; geralmente nos tornamos pessoas mais humanas.”

O que diferencia o processo natural de luto de uma situação que deve ser acompanhada de perto por especialistas é o impacto nas atividades cotidianas e como ele pode ser gatilho para outras condições de saúde mental.

Estima-se que entre 80% e 90% da população enlutada ultrapassa esse período sem desenvolver sintomas debilitantes de ordem física, mental ou comportamental.

Como encontramos o luto no decorrer da vida

<h3_pink>Luto antecipado<h3_pink>

Quando a reação à morte começa antes mesmo de um ente querido partir, de acordo com as condições de saúde e prognóstico.

<h3_pink>Luto<h3_pink>

O processo natural em direção à aceitação da perda com diferentes sintomas e oscilações, bem como a capacidade de continuar as atividades diárias básicas durante o processo.

<h3_pink>Luto tardio<h3_pink>

Quando o luto se manifesta meses depois de alguma perda.

<h3_pink>O que esperamos do luto no fim do processo<h3_pink>

Criar uma nova relação afetiva com o ente que partiu baseada em saudades e lembranças e novos rituais para incluí-lo em sua jornada de vida.


Entendendo o processo de luto 

Tristeza, choque, negação, ansiedade, perda de sono e de apetite, raiva, sofrimento e outras emoções que oscilam nesse período se manifestam como uma forma de compreensão e reconstrução de um vínculo afetivo com alguém que partiu.

O luto é estudado através dos séculos por inúmeras áreas: psiquiatria, psicanálise, psicologia, sociologia, antropologia e etnologia - passando por Darwin, Freud e as conversas entre amigos, familiares e desconhecidos em uma fila de espera. 

Uma teoria comum no debate sobre o enfrentamento da morte é de Elisabeth Kübler-Ross, psiquiatra suíço-americana que dedicou sua vida para entender o luto.

No final dos anos 60, ela tentou defini-lo em diferentes momentos conhecidos como Os Cinco Estágios do Luto: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação, que podem ser utilizados em uma situação de morte de uma pessoa próxima ou até mesmo em uma demissão ou no fim de um casamento. 

Em um primeiro momento, a pessoa evitaria pensar sobre a morte de um ente querido, se isolaria para não falar sobre o assunto e ignoraria o impacto da perda. Esse período de negação se transformaria em inconformismo em relação ao que aconteceu.

A raiva visaria resolver essa situação, que pode chegar até a criação de fantasias para lidar com a dor. Ao entender que a morte não é reversível, a pessoa se voltaria para o momento da perda, sentindo todas as emoções reprimidas e a tristeza profunda pela partida.

E, por fim, ao percorrer todo esse processo, entenderia e aceitaria a morte. 

Essa teoria ainda é polêmica: por ser uma situação individual, ela apenas descreve uma hipótese do que pode acontecer no processo de luto, mas nem sempre o ser humano segue essa ordem cronológica ou apresenta todos os estágios descritos. 

Não há evidências científicas do tempo “ideal” do luto ou como ele se transforma de um processo natural para um efeito negativo para a saúde mental a longo prazo, como transtornos de ansiedade, sintomas de depressão, entre outros. 

A literatura demonstra que as diferenças interculturais, de sexo, religião, status e circunstanciais da pessoa que morreu influenciam na manifestação do luto, que pode começar antes mesmo da partida e durar um ano ou até mesmo uma vida inteira. 

Não invalidar a dor e não fechar os olhos para o futuro 

Se você já sentiu um misto de sentimentos que oscilam, saiba que este é o processo natural do luto e não há nada de errado com isso. Pelo contrário, a oscilação é saudável e necessária para que a emoção não seja invalidada, além  de criar uma situação de reorganização interna para a nova realidade. 

No final da década de 90, a literatura científica apontou que esse processo é um caminho positivo para lidar com o momento de perda.

Desde então, aceita-se o modelo dual de luto como uma forma de encorajar a vivência das dores agudas da partida e, ao mesmo tempo, a necessidade de olhar para frente com um novo significado para a vida. 

“De forma didática, é entender os sentimentos enfrentados pela perda e tentar incluí-los na rotina em prol de uma restauração. Uma forma de lidar com as saudades, tristeza e negação e enfrentar o fato de que será necessário se adaptar a uma nova realidade”, resume Cesar Ferreira. “Nesse modelo, rever fotos antigas, chorar, sentir saudades, falar ou até escrever uma carta para o ente que partiu são colocados do mesmo lado que retomar as tarefas do dia a dia ou criar novas conexões. No final, esse vazio aos poucos é ocupado e a dor, ressignificada, mas não esquecida.”

Como substituir os rituais durante a partida

<h3_pink>Adaptação do ritual<h3_pink>

Adapte o ritual religioso para o ambiente online para que a possa reunir todos independente da localização ou protocolos de isolamento social.

<h3_pink>Compartilhe histórias<h3_pink>

Compartilhe histórias e fotos do ente por meio de grupos privativos no Whatsapp, Telegram ou Facebook. Algo que possa ser acessado por todos e auxiliar no processo de luto de forma menos solitária.

<h3_pink>Monte uma playlist coletiva<h3_pink>

Faça uma playlist coletiva, onde as pessoas possam incluir as músicas que lembrem a pessoa que partiu.

<h3_pink>Combine uma data de homenagem<h3_pink>

Para lidar com datas especiais como o dia das mães, pais, natal, aniversário, combine uma data para homenagear online com um ritual de lembrança: com músicas, peomas, leitura.

<h3_pink>Associe uma atividade com saudades a longo prazo<h3_pink>

Faça uma atividade para associar com as suas saudades a longo prazo: plante uma árvore e acompanhe o seu crescimento ou acostume-se a preparar uma refeição que lembre a pessoa amada que morreu.

Acolhimento

Nossa cultura não trata a morte como um processo natural.  O medo cria um estigma que dificulta a vivência do processo de perda, mas é essencial para o processo de luto buscar amparo e acolhimento. Compartilhar emoções torna o momento menos doloroso e solitário. 

Procure falar sobre o tema com amigos, familiares e outras redes que incluem rodas de conversas sobre o tema, orientação de profissional de saúde, aconselhamento espiritual ou outras organizações que você tem confiança para obter conhecimento e acolhimento sobre o momento. 

Utilizar a internet e as redes sociais para se expressar e receber ajuda pode ser uma alternativa. Além disso, situações ao ar livre, seguindo todos os protocolos de segurança sem aglomeração, podem auxiliar o enfrentamento da dor. 

Leia mais: Chorar como cura: Os benefícios das lágrimas para a saúde

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